domingo, 9 de março de 2014

Capela de São Joaquim dos Almeidas


Quem passa pela ponte sobre o Rio do Peixe, adiante da povoação de Manejo, indo para o Taboado, nem de longe imagina o que representa a velha capelinha, erguida próxima à ponte, à margem esquerda do Rio do Peixe. Defronte à ponte, à jusante, o rio se espraia, formando um extenso poço, onde as águas rodam, lentas e profundas. 

Entulhos da ponte demolida, colocados entre os pegões da margem direita e o central, forçam as águas pra margem esquerda e elas assim, batem no barranco e desenvolvem um grande círculo.




As margens aos poucos recuperam a vegetação que as cobria, dando à paisagem um ar selvagem e natural, não fossem a estrutura pesada da ponte com seus pilares e pegões, e a capelinha, com paredes azul claro desbotado, sujo e  os muros descascados. O terreno ao lado da capelinha, tinha sido arado para semeio de milho para forragem, plantio que ocupa a longa várzea dantes pertencente à Fazenda do Manejo, que se estende até abaixo da Vila São Geraldo, a uns cinco quilômetros rio abaixo...



Trata-se da Capela de São Joaquim, tendo próxima a si um jovem gerivá e um pequeno cemitério, cercado por velhos muros de tijolos descascados e vedado por um portão de ferro enferrujado.
Essa capela era parte da povoação de São Joaquim dos Almeidas, nome que tinha a margem "de lá" do rio, antes do advento da ferrovia e sua estação. Era a parte mais habitada então, desde meados do século XVIII, época em que o primeiro dos Almeidas aportou por essas terras vindo de Santa Rita de Ibitipoca.
A capela de São Joaquim dos Almeidas sediava regulares missas e festas, sendo em seu cemitério sepultados todos os que morreram na região antes de 1989, ano em que foi inaugurado o cemitério atual, atrás da Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Não se sabe ao certo quando foram erigidos a capela e o cemitério, mas é voz corrente entre os mais antigos que o cemitério é bem mais antigo que o de Lima Duarte. Já que o de Lima Duarte é do início do século XIX, podemos supor que o de Manejo seja contemporâneo da fazenda, ou seja, pelo menos final do século XVIII.
Fazia parte da Fazenda do Manejo, de Manoel de Almeida Ramos, atualmente demolida e conhecida como Fazenda dos Cândidos. Nela pode ter sido batizado o menino João Evangelista de Almeida Ramos, futuro Barão de Santa Bárbara, que nasceu na Fazenda do Manejo, ao lado da capela.
A despeito de sua importância histórica, religiosa e social, jaz a capelinha em meio ao mato e ao abandono. Prova do esquecimento a que foi relegada, uma colméia de abelhas segue, suspensa em uma de suas paredes laterais. A cobertura, de telhas de amianto, forma um telhado desigual e exógeno, apresentando rachaduras e as paredes, mal chapiscadas, escondem a boa alvenaria de tijolos, revelada na cimalha  escalonada que coroa as paredes. Percebe-se que, tanto o cemitério quanto a capela sofreram ao longo do tempo muitas intervenções, chamadas de reformas.
A porta única foi substituída por uma porta de ferro e vidro, por certo por sua maior resistência ao tempo. Apesar de mais resistente e barata, nada tem a ver com o conjunto. O calçamento em redor foi removido, de forma que o mato invade a base cavoucada das paredes. O frontão revela alteração com retirada da platibanda e perpasse do telhado de amianto, tirando da capela as características comuns de um templo católico, já que atualmente não dispõe nem de uma cruz que o assinale. Pelos vidros da porta olhamos o interior! O altar, único, revela alterações, já que é executado em alvenaria argamassada. Nada tem de artístico e original, a não ser a imagem do Padroeiro, de uns 40 cm de altura creio e outras imagens devocionais, a maioria  desbotada e apresentando partes quebradas. Da capela original, ou pelo menos anterior à atual, localizei dois restos de peanhas nas paredes laterais, possivelmente partes do antigo altar em madeira. O piso também sofreu alterações, bem visíveis. Nas paredes laterais há dois óculos em forma de cruz de cada lado, possivelmente para ventilação. Num desses óculos a tal colméia se instalou, na parede que dá pro lado do rio.

O cemitério, situado atrás da capela, também traz as marcas do abandono. Cheio de dracenas altas e antigas, já não apresenta os tradicionais amontoamentos das covas. A erosão provocada pelo tempo e pelas capinas acabou por rebaixar e nivelar o solo, expondo em vários lugares as pedras do alicerce dos muros, que apresentam, por isso, várias fissuras, desalinhamentos e desnivelamentos, denunciando o movimento da estrutura de alvenaria.

O cruzeiro caiu e só identificamos seu possível pé, por conta dos restos de imagens e borras de velas amontoadas no que era sua base, ao fundo do cemitério. O portão apresenta também partes deterioradas e muito ferrugem, resultado da exposição às intempéries e à falta de manutenção periódica. Curiosamente, é o primeiro portão de cemitério que vejo na vida de uma só bandeira o que pra mim atesta outra alteração. Intrigado com o fato da capela estar virada para o "nada", de costas para a estrada, indaguei a moradores locais a respeito do fato. Fui então informado de que a antiga ponte ficava situada bem abaixo da atual, onde hoje existem umas moitas de bambu,  e que o rio corria em um leito bem diverso do atual, ou seja, a estrada antigamente passava defronte à atual capela. Por moradores locais também fui informado de que as terras ao lado da capela pertencem ao senhor Joaquim Campos Pereira, proprietário também da Fazenda Pão de Angu, tendo-a comprada do senhor Manoel Teixeira Lopes, que teria dado ordem a um tratorista para demolir a capela e o cemitério. O tratorista, não se sabe se por medo, zelo, ou cuidado, desligou o trator desceu e deu a chave ao então dono dizendo-lhe que "isso eu não faço...suba e faça o senhor mesmo". Diante da negativa deste, o tratorista seguiu a arar terra pra outro lado, e a centenária capela e seu cemitério foram poupados.



 Outra ameaça que se faz constante ao conjunto é a erosão marginal do Rio do Peixe. Por ocasião da demolição da plataforma da estação, foram os restos jogados na margem do rio, provocando um alinhamento da força das águas em direção ao outro lado da margem, onde está a capela, provocando sua erosão. Há poucos anos, a ponte apresentou problemas estruturais graves, ocasionados pela retirada indiscriminada de areia do leito. Foi então demolida em parte e refeita. Os moradores pediram então que os entulhos fossem jogados na margem onde está a capela, como forma de conter o avanço da correnteza. Tal pedido não foi atendido, mas as preces do povo sim. O rio alargou defronte à ponte, diminuindo a força da correnteza, agora mais direcionadas pro meio do leito do rio. As margens desde então se estabilizaram e a vegetação se recompõe naturalmente.


Na foto da ponte vista de perto da capela, os entulhos sob o tabuleiro, responsáveis pelo estreitamento do leito e direcionamento das águas à margem esquerda, persistem.

Apesar de supostamente abandonada, a capela de São Joaquim dispõe de zelador, um senhor que faz o que pode em sua defesa. Herdou de seu pai a guarda da capela e de certa forma é o único a se preocupar com sua existência, já que nem a Arquidiocese, a Paróquia e a Prefeitura zelam pelo conjunto. Esse encargo hereditário faz com que aja até com certo extremismo, negando-se a abrir a igreja e tratando os curiosos com desconfiança. Ato completamente compreensível de quem com as chaves deve ter herdado a tristeza, o sofrimento e  a dor de ver o solo onde foram batizados, casados  e sepultados seu pai, mãe, avós, bisavós e tetravós a ponto de virar entulho e ser empurrado pra dentro do rio.












3 comentários:

  1. Marco,

    creio que o Sr.Joaquim Delgado Motta seja meu tataravô. Tenho pesquisado bastante e gostaria de saber se tem informações sobre ele e seus familiares.

    Meu email: sergiojrdf@gmail.com

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    1. Sérgio, vou pesquisar e te envio!
      Obrigado por prestigiar e comentar!
      Um abraço

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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